quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ciência e humanismo no novo Homem-Aranha


Revisitando com competência o personagem, Marc Webb concede toque humano ao filme

Hollywood tem pressa e tudo lá tem que se resolver em no máximo três anos - da escolha do projeto a sua pós-produção o lançamento do filme, tudo é planejado minimamente para cada etapa, incluindo, aí, a data de lançamento. Afinal, milhões de dólares estão em jogo e os piratas nunca dormem.

Faz apenas cinco anos que Sam Raimi encerrou a trilogia dedicada ao Homem-Aranha, super-herói criado por Stan Lee e surgido nos quadrinhos, em agosto de 1962, no 15º número da revista "Amazing Fantasy". Não há dúvida de que Raimi tenha feito um bom trabalho, mas os números obtidos pelos filmes nas bilheterias nunca foram excepcionais, embora o último da série tenha decepcionado não apenas aos fãs, mas principalmente aos executivos da Sony. Restava a estes duas decisões: descartar Raimi e, para salvar a franquia, promover um "reboot" do herói. Assim, três anos após essa decisão, o super herói está volta.


"O Espetacular Homem-Aranha" inicia uma nova trilogia. Para tanto, a Sony já entregou ao roteirista James Vanderbilt a responsabilidade de dar continuidade às aventuras. E o mote do enredo é concedido pelas duas cenas "extras" no meio dos créditos finais de "O Espetacular Homem-Aranha". O fato de "O Espetacular Homem-Aranha" ter sido aprovado pelos fãs (especialmente pelos poderosos sites e blogueiros do herói), pelo público e a crítica estadunidense reforça a continuidade da franquia.

Quanto ao filme, trata-se de uma deliciosa aventura na qual o cinema incorpora a linguagem e o visual dos quadrinhos. Vanderbilt (de "Violação de Conduta"/2003; e "Zodíaco"/2007), desenvolveu o enredo, posteriormente "retocado" por Alvin Sargent" (autor dos enredos dos dois últimos "Homem-Aranha" da trilogia) e, posteriormente, revisado por Steven Kloves (da série "Harry Potter"), o qual incorporou maior dramaticidade aos personagens centrais (Peter Parker, Gwen Stacy, o cientista Curt Connors) e seguiu fielmente a cronologia do enredo original, destacando Stacy, a primeira namorada de Parker.

No entanto, alguns outros detalhes chamam a atenção em "O Espetacular Homem-Aranha". Primeiro, no resgate da história dos pais de Peter, os quais desaparecem misteriosamente (nos quadrinhos, tiveram uma breve presença numa das histórias dos anos 90). Segundo, no dimensionamento dramático da orfandade do jovem estudante criado pelos tios, Ben (Martin Sheen) e May (Sally Field), origem dos traumas e motivo de sua rebeldia.

No entanto, o que fascina mesmo em "O Espetacular Homem-Aranha" é a maneira intimista com a qual o diretor Marc Webb conduz a narrativa, dando uma dramaticidade consistente, a qual só é levemente abandonada com a inserção de alguns diálogos e situações cômicas, base da linguagem do cinema de Hollywood.

Webb repete aqui o que tinha feito em "(500) Dias com Ela" (2009), quando apenas dirigiu o roteiro escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber: deu-lhe uma dimensão intimista, a qual acaba se tornando o grande trunfo da película.

Sensibilidade

O cineasta, ao aplicar idêntico método a "O Espetacular Homem-Aranha" criou, acima de tudo, uma obra humanista sobre a dor da perda. Peter Parker sofre com a perda dos pais e posteriormente a de seu tio Ben; seus tios, por sua vez, sofrem com a impossibilidade de aplacar a dor do sobrinho; o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans) sofre com os problemas que travam a possibilidade de encontrar a fórmula para eliminar a dor das pessoas com deficiência, e, depois, com a sua transformação em um réptil gigante. E Gwen, finalmente, sofre com a possibilidade de perder o pai, o policial Capitão Stacy (Dennis Leary).

No entanto, mesmo na exploração dramática da dor da perda, o enredo trata a relação entre Peter Parker e Gwen Stacy com o mais puro romantismo. Contribui, para isso, a química perfeita entre Andrew Garfield e Emma Stone. Também pudera: eles são namorados na vida real. Esses detalhes apenas reforçam as qualidades de um filme cujo enredo, muito vem elaborado, soube unir gêneros e temáticas. Voltando ao tema anterior, reside nesse antagonismo da dor, a perda ocorrida em Peter e a dor a ser sentida por Gwen, o fracasso do projeto de Connors, os grandes elementos dramáticos do enredo.

Neste contexto, a ciência entra em discussão: ela pode ser o caminho para o bem e o mal. Imaginem essa dimensão, só para exemplificar, em uma notícia estampada nos jornais na última quarta-feira: cientistas estadunidenses e holandeses vão retomar a pesquisa com supervírus, após uma suspensão judicial de 60 dias. Com isso, volta uma temeridade de parte da comunidade científica de um desses supervírus escapar de um laboratório.

Mas, por outro lado, essa pesquisa é necessária porque gera a prevenção do aparecimento de um desses superagentes infecciosos capazes de ameaçar a humanidade. Qual das duas vai prevalecer primeiro, obviamente, ninguém sabe. Na figura do Dr. Curt Connors reside essa dualidade da ciência, a qual foi genialmente exposta por Robert Lewis Stevendon através de seus personagens Dr. Jekyll x Mister Hyde em "O Médico e o Monstro". Em outro campo, a ciência busca entender a criação de tudo ao encontrar a "Partícula de Deus". Os cientistas vão encontrar as respostas? Apenas registros para expor a importância da ciência e os caminhos os quais percorre. Atente-se, ainda, em "O Espetacular Homem-Aranha", a homenagem clara a dois filmes, um em imagem, outro em diálogo. Em imagem, na primeira cena do Dr. Connors como o lagarto no esgoto, cuja sombra híbrida se vislumbra na parede como a de "Nosferatu, o Vampiro" (1922), o clássico de terror de F. W. Murnau; e, em diálogo, a referência ao prefeito de Tóquio, menção clara a "Godzilla" (1954), de Inoshiro Honda.

Na parte técnica, louve-se a criação dos planos cinematográficos, especialmente dos planos-sequências dos saltos do Homem-Aranha entre os edifícios (a do herói no alinhamento das gruas é de tirar o fôlego), através das quais se percebe como o 3D pode ser usado com criatividade e em função do espectador. São sequências criadas pelos efeitos especiais de computação, mas ainda assim marcam o puro cinema, pois este é, também, tecnologia. Por todas essas exposições, e outras não registradas nesta restrita análise, "O Espetacular Homem-Aranha" é um filme delicioso. Um salutar recomeço de existência para o Homem-Aranha.

Mais informações:

O Espetacular Homem-Aranha (The amazing Spider-Man, EUA, 2012), de Marc Webb, com Andrew Garfield, Emma Stone e Sally Field. 137 minutos. 10 anos.
PEDRO MARTINS FREIRE CRÍTICO DE CINEMA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não esqueça de assinar nossa newsletter para receber as promoções. Obrigado por comentar!

Blog parceiro do

Encontre as melhores marcas de acessórios para maquiagem e diversos modelos de tênis femininos no Paraíso Feminino.

Postagens populares